Sobre a vida num mundo líquido-moderno

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A vida líquida é a vida que se vive na modernidade líquida. Uma sociedade líquido-moderna é aquela em que as condições de ação dos membros mudam numa velocidade maior do que a capacidade deles de consolidar seus modos de ação em hábitos duradouros. Aquilo que valia para uma situação específica no passado rapidamente perde sua validade antes que se possa criar um costume. O valor central é a instabilidade. A sociedade líquido-moderna alimenta a vida líquida, e vice-versa. Ambas não podem manter sua forma por muito tempo.
Numa sociedade líquido-moderna, não há tempo para aprender com o hábito, pois os meios de ação se tornam rapidamente obsoletos. Existe uma imprevisibilidade quanto às tendências futuras, pois a maioria das variáveis envolvidas numa equação é desconhecida, o que acarreta na inconfiabilidade dos cálculos e prognósticos.
Em resumo, a vida líquida é vivida em condições de incerteza constante. O maior medo gerado neste tipo de vida é o de não acompanhar a rapidez das mudanças, de ficar para trás. A vida líquida é uma sucessão de reinícios, ou melhor, uma sucessão de finais, pois livrar-se das coisas tem prioridade sobre adquiri-las.
É preciso acelerar o ato de adquirir para que se possa ter o prazer de jogar fora. É o ato de jogar fora que confere sentido ao de adquirir. A instrução mais necessária não é a de como começar, mas como chegar ao fim (de um relacionamento, por exemplo). A ênfase recai em esquecer, apagar, desistir e substituir.
A sobrevivência dessa sociedade e o bem-estar de seus membros depende da rapidez com que os produtos são descartados. Nada pode ter a permissão de se tornar incômodo ou indesejável. A constância das coisas é o perigo mais assustador e mais atacado. Deve-se jogar fora tudo que gere desconforto, numa espécie de desapego que nos libera para o consumo de algo novo.
A vida numa sociedade líquido-moderna não pode ficar parada. Deve modernizar-se ou morrer. Isso significa se livrar do ultrapassado e buscar sempre o último modelo. A necessidade é a de correr para permanecer estável na instabilidade. A vida líquida caminha no sentido da destruição dos modos de vida anteriores, e das pessoas que os praticam. É como uma “dança das cadeiras”, e a globalização eleva essa competição para o nível global.
As chances mais amplas de vitória pertencem às pessoas que circulam perto do topo da pirâmide global. Pessoas voláteis, que estão em casa em todos os lugares e em nenhum lugar. Que vivem numa sociedade de valores voláteis, descuidada com o futuro, egoísta e hedonista. A arte da vida líquida consiste em valorizar a desorientação, a obsolescência e a falta de um itinerário.
Um exemplo é o padrão de sucesso empresarial de Bill Gates, que prospera na medida em que torna os próprios produtos obsoletos e ultrapassados numa velocidade cada vez maior. O horizonte ideal é aquele em que tudo que se torna enfadonho é substituído, incluindo o emprego, o lar e as relações sociais, como na cidade fictícia de Eutrópia, do livro Cidades invisíveis de Ítalo Calvino. Os membros da sociedade líquido-moderna devem fluir como a água, seguir a corrente. Não podem se estagnar ou se prender a nada, nem mesmo a opiniões e visões de mundo. Devem se ligar apenas temporariamente às coisas. Tudo deve ser passageiro.
As pessoas da base da pirâmide, no entanto, não tem a opção de fluir como os membros mais privilegiados. Estão presos pelo pertencimento à comunidade. Uns não os deixariam sair, enquanto outros não os deixariam entrar. Os poucos que se arriscam a abandonar a comunidade de pertença enfrentam a miséria corporal e o trauma psíquico. Como contraste, o autor nos lembra que na Grécia antiga o exílio era equivalente à pena capital.
Entre a base e o topo, as pessoas são atormentadas pelo problema da identidade. Entra o conceito de “lumpen-proletariado espiritual”, cunhado por Andrzej Stasiuk. O lumpen-proletariado espiritual é descrito como um vírus que faz as pessoas viverem o presente pelo presente. O mundo não é mais dado por herança, e isso traz a liberdade de movimento por um lado, mas a destituição e a privação por outro, e por isso não há problema em explorar o mundo a seu bel-prazer. Não sobra espaço para se preocupar com algo que não pode ser consumido no presente.
A eternidade é rejeitada porque o presente é infinito em possibilidades. Por exemplo, há mais livros para ler do que se poderia ler em muitas vidas. O que importa é a velocidade, e não a duração, pois com a velocidade certa se pode consumir toda a eternidade no presente contínuo. A eternidade deve ser comprimida numa vida terrena. Trata-se de extrair numa vida mortal tudo que a imortalidade poderia oferecer.
Num mundo desacelerado as pessoas preenchiam o abismo entre sua própria finitude e a eternidade do universo com esperanças de reencarnação ou ressurreição. No mundo acelerado, essas esperanças podem ser descartadas, pois uma vida acelerada pode produzir os prazeres de muitas vidas comprimida numa só. Ao deixar de se preocupar com a eternidade, o auto-sacrifício perde seu valor, pois tudo pode e deve ser conseguido imediatamente.
A vida liquida é uma vida de consumo. Tudo se torna objeto de consumo. Estar dentro do “prazo de validade” é valor de consumo por si só, e o fato de algo ser novo deixa de ser uma qualidade e passa a ser uma função. No mundo líquido-moderno, a lealdade é motivo de vergonha. O que é novo é consumidoristicamente correto.
O consumidor deve se tornar mercadoria, pois só tendo valor de uso eles podem ter acesso à vida de consumo. Você consome para ser consumido e é consumido para consumir. Ser consumido significa ser objeto de cobiça, passar inveja. Os outros devem desejar ser você e consumir o que você consome.
A vida líquida alimenta a insatisfação do eu consigo mesmo. O mundo exterior tem um valor instrumental, e é devastado em nome da reforma constante do eu na sua busca por auto-satisfação. Até mesmo a recente preocupação com o meio ambiente deve sua popularidade à percepção de um vínculo entre o uso predatório dos espaços planetários e as ameaças ao fluxo suave das atividades autocentradas da vida líquida.
A busca da felicidade é o motivo supremo da vida líquida, e a infelicidade impulsiona a política da vida autocentrada, como um mecanismo autopropulsor. Este mecanismo tem a capacidade de absorver e assimilar as tensões e fricções que ele mesmo gera e usá-las em seu proveito. A demanda por alívio, gerada pelas tensões, é o que mantém o mecanismo funcionando.
A educação é vista como solução para aliviar as pressões dos fatos sociais, mas não se sabe se os educadores serão capazes de resistir a essas pressões. Citando Richard Rorty, Bauman diz que as esperanças da educação superior recaem não sobre a capacidade de apontar o que é certo, mas sim de incitar a dúvida, desafiando o consenso prevalecente. Este intelectualismo humanista se torna alvo de ataque para os defensores do fim da história, da escolha racional e das políticas fatalistas. Isso provoca ataques de irrealismo, utopia, pensamento positivo, fantasias e reversão da verdade ética, o que resulta em irresponsabilidade.
Uma sociedade democrática (ou, segundo Cornelius Castoriadis, autônoma) não conhece substituto para a educação na tarefa de influenciar sua própria mudança, e ao mesmo tempo a natureza da sociedade não pode ser preservada sem a pedagogia crítica, que faz a sociedade se sentir culpada perturbando as consciências. A educação produz a insatisfação com o grau de liberdade oferecido pela sociedade democrática, o que forma um círculo vicioso, no qual, porém, as esperanças humanas, segundo Bauman, residem.
O autor conclui dizendo que o livro pretende ser uma coletânea incompleta de ideias sobre vários aspectos da vida líquido-moderna, com a perspectiva de tornar o mundo humano um pouco mais hospitaleiro para a humanidade.
Referência:
BAUMAN, Zygmunt. Vida Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 7-23.

Quem elegeu a busca não pode recusar a travessia


"Quem elegeu a busca não pode recusar a travessia.", pois nada cai do céu na aba ou interior do seu chapéu, nem no seu colo, nem nos seus braços, portanto, eleja, sim, o objeto da tua busca, seja ele material ou espiritual e parta decidido em sua captura e nem se incomode com a travessia pois ela pode sim, conter armadilhas, dissabores, desestímulos, mas siga em frente com a mente firme, reta, direcionada ao seu sucesso, sem se incomodar com os gritos alheios pois nem todos te farão coro em suas aspirações. Muitos, por inveja, incapacidade ou mesmo medo tentarão te dizer para não ir, mas não recuse a travessia, pois chegando lá (sempre lá) onde almejou, onde quis, onde planejou, o sucesso virá te abraçar e importante: não fira ninguém, para a tua vitória ser a mais limpa e saborosa possível. 


Fkaram, Dracena

Agradecer o que não nos dão


O mais comum é agradecer o que nos foi dado. E não nos faltam motivos de gratidão. Há, é claro, imensas coisas que dependem do nosso esforço e engenho, coisas que fomos capazes de conquistar ao longo do tempo, contrariando mesmo o que seria previsível, ou que nos surgiram ao fim de um laborioso e solitário processo. Mas isso em nada apaga o essencial: as nossas vidas são um recetáculo do dom.

Por pura dádiva recebemos o bem mais precioso, a própria existência, e do mesmo modo gratuito fizemos e fazemos a experiência de que somos protegidos, cuidados, acolhidos e amados. Se tivéssemos de fazer a listagem daquilo que recebemos dos outros (e é pena que esse exercício não nos seja mais habitual), perceberíamos o que a poetisa Adília Lopes repete como sendo a sua verdade: «sou uma obra dos outros». Todos somos.

A nossa história começou antes de nós e persistirá depois. Somos o resultado de uma cadeia inumerável de encontros, de gestos, boas vontades, sementeiras, afagos, afetos. Colhemos inspiração e sentido de vidas que não são nossas, mas que se inclinam pacientemente para nós, iluminando-nos, fundando-nos na confiança. Esse movimento, sabemo-lo bem, não tem preço, nem se compra em parte alguma: só se efetiva através do dom.

Por isso é que quando ele falta a sua ausência indelével faz-se sentir a vida inteira. O seu lugar não consegue ser preenchido, mesmo se abunda uma poderosa indústria de ficções de todo o tipo com a inútil pretensão de ser oblívio e substituição para essa espécie de fala geológica que nos morde.



Hoje, porém, dei comigo a pensar também na importância do que não nos foi dado. E a provocação chegou-me por uma amiga que confidenciou: «Gosto de agradecer a Deus tudo o que Ele me dá, e é sempre tanto que nem tenho palavras para descrever. Sinto, contudo, que lhe tenho de agradecer igualmente o que Ele não me dá, as coisas que seriam boas e que eu não tive, o que até pedi e desejei muito, mas não encontrei. O fato de não me ter sido dado obrigou-me a descobrir forças que não sabia que tinha e, de certa maneira, permitiu-se ser eu».

Isto é tão verdadeiro. Mas exige uma transformação radical da nossa atitude interior. Tornar-se adulto por dentro não é propriamente um parto imediato ou indolor. No entanto, enquanto não agradecermos a Deus, à vida ou aos outros o que não nos deram, parece que a nossa prece permanece incompleta. Podemos facilmente continuar pela vida dentro a nutrir o ressentimento pelo que não nos foi dado, a compararmo-nos e a considerarmo-nos injustiçados, a prantear a dureza daquilo que em cada estação não corresponde ao que idealizamos.

Ou podemos olhar o que não nos foi dado como a oportunidade, ainda que misteriosa, ainda que ao inverso, para entabular um caminho de aprofundamento... e de ressurreição. Foi assim que numa das horas mais sombrias do século XX; desde o interior de um campo de concentração, a escritora Etty Hillesum conseguiu, por exemplo, protagonizar uma das mais admiráveis aventuras espirituais da contemporaneidade. No seu diário deixou escrito:

«A grandeza do ser humano, a sua verdadeira riqueza, não está naquilo que se vê, mas naquilo que traz no coração. A grandeza do homem não lhe advém do lugar que ocupa na sociedade, nem no papel que nela desempenha, nem do seu êxito social. Tudo isso pode ser-lhe tirado de um dia para o outro. Tudo isso pode desaparecer num nada de tempo. A grandeza do homem está naquilo que lhe resta precisamente quando tudo o que lhe dava algum brilho exterior, se apaga. E que lhe resta? Os seus recursos interiores e nada mais.»


Pe. José Tolentino Mendonça
(In Expresso, 18.4.2014)

http://www.centroloyola.org.br/index.php/revista/outras-palavras/desdobramentos/673-agradecer-o-que-nao-nos-dao


Nos teus invernos há sementes que germinam

Nos teus invernos há sementes que germinam, sabias?

Depois de João ter sido preso, Jesus partiu para a Galileia e começou a proclamar o Evangelho de Deus, dizendo: «Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».

Caminhando junto ao mar da Galileia, viu Simão e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores. Disse-lhes Jesus: «Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens». Eles deixaram logo as redes e seguiram Jesus. Um pouco mais adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, que estavam no barco a consertar as redes; e chamou-os. Eles deixaram logo seu pai Zebedeu no barco com os assalariados e seguiram Jesus. (Marcos 1, 14-20, Evangelho do 3.º Domingo do Tempo Comum)

Marcos conduz-nos ao momento primordial em que uma notícia extraordinária começa a correr pela Galileia, anunciando com a primeira palavra: o tempo cumpriu-se, o Reino de Deus está aqui.


Jesus não demonstra o Reino, mostra-o e fá-lo florir das suas mãos: liberta, cura, perdoa, derruba barreiras, volta a dar a plenitude a todos, a começar pelos últimos. O Reino é Deus que vem para curar do mal de viver, como a vida que desponta em todas as suas formas.

A segunda palavra de Jesus pede para tomar posição: convertei-vos, voltai-vos para o Reino. Há uma ideia de movimento na conversão, como no girassol que a cada manhã volta a erguer a sua corola e a orienta na direção do sol. Convertei-vos: isto é, voltai-vos para a luz porque a luz já está aqui.

A cada manhã, a cada despertar, também eu posso converter-me, dirigir pensamentos, sentimentos e escolhas para uma estrela polar do viver, para a boa notícia de que Deus está hoje mais próximo, penetrou mais profundamente no coração do mundo e no meu, com mansidão e poderosa energia para o amanhecer de novos céus e nova terra.

Também eu posso construir o meu dia sobre esta feliz certeza; deixar de ter os olhos baixos sobre os meus mil problemas, mas levantar a cabeça para a luz, para o Senhor que me assegura: Eu estou contigo, nunca te deixo, nunca serás abandonado.

Crer no Evangelho. Não basta aderir a uma doutrina; é preciso atirar-se para dentro dele, para que a nossa vida seja submersa nele e dele derivem as nossas escolhas.

Caminhando ao longo do lago, Jesus vê... Vê Simão e nele intui Pedro, a Rocha. Vê João e nele perscruta o discípulo das mais belas palavras de amor. Um dia olhará a adúltera trazida à força para diante dele e nela verá a mulher capaz de amar de novo.

O Mestre olha também para mim; nos meus invernos vê sementes que germinam, generosidade que desconhecia ter, capacidades de que não suspeitava. O olhar de Jesus alarga o coração, torna-o mais amplo. Deus tem para mim a confiança de quem contempla as estrelas ainda antes que se iluminem.

Segue-me, vem após mim. Jesus não se alonga em motivações, porque o motivo é Ele, que te coloca o Reino recém-nascido entre as mãos. E di-lo com uma palavra inédita: farei de vós pescadores de homens. Como se dissesse: farei de vós buscadores de tesouros.

Como e dissesse: o meu e o vosso tesouro são os homens. Havereis de os tirar para fora da escuridão, como peixes sob a superfície das águas, como recém-nascidos das águas maternas, como tesouro desenterrado do campo. Passá-los-eis da vida submersa à vida ao sol. Mostrareis que o Evangelho é a chave para viver melhor.

Ermes Ronchi
In "Avvenire"

http://www.centroloyola.org.br/index.php/revista/outras-palavras/desdobramentos/711-nos-teus-invernos-ha-sementes-que-germinam

O que nos olha de frente?

A escuta, a vigilância, a atenção são ferramentas para uma viagem humana fecunda. Os Padres do deserto diziam: «O maior dos pecados é a distração». Vivemos num mundo que nos atropela continuamente, pela quantidade e velocidade da informação. As imagens que vemos também nos obsidiam, aprisionam e devoram. Na sobreposição de discursos e factos, nem sempre somos capazes de contrariar a alienação. E depois: quantos dos nossos gestos não se tornaram, entretanto, meros automatismos! Quantas das nossas escolhas não se esvaziaram de conteúdo, cabendo-nos administrar apenas a forma! É assim que acontece que numa cultura marcada por um excesso de signos, vivamos mergulhados numa inesperada e dramática pobreza simbólica. De certa maneira, enfraqueceu-se a nossa capacidade de ver, e com isso perdemos o acesso a dimensões necessárias de profundidade. O verbo mais importante é o ver, diziam os gregos. E para ver não basta olhar, não basta deslocar a visão para o outro lado da janela. É preciso, como avisa Fernando Pessoa, «não ter filosofia nenhuma». Só uma atitude de desprendimento nos permite aceder à vigilância autêntica. E não esqueçamos: só um coração pobre vigia. Só um peregrino descobre. Só o olhar do que não tem defesas consegue colher, no instante, a verdadeira presença.


Escreve o místico Silesius:: «a rosa é sem porquê, floresce porque floresce, não cuida de si própria, não pergunta se a vemos». Quando se diz ‘a rosa é sem porquê’, ou ‘a rosa é de ninguém’, propomo-nos investir num modo de construir o real que já não passa por sermos predadores e o real ser uma presa que vamos dominar ou domesticar. Entramos num espaço não já de predadores e presas, mas de vigilantes, de contemplativos, de operadores do assombro.

Vigiar é colocar-se na disponibilidade para a surpresa, para aquilo que vem, tendo consciência que o fundamental da vida não é o que adquirimos, o que fizemos, o que de alguma maneira dominamos, mas sim a incessante prática da hospitalidade. Toda a música que ouvimos, nos preparou, no fundo, para o ato da escuta. Todos os textos que estudamos, toda a poesia que lemos nos prepararam melhor para o ato da leitura. Toda a relação em que investimos, todo o afeto que partilhamos, todo o amor com que amamos, preparam-nos para o ato simples de amar. A vigilância é isso. Não está no apego ao mapa, mas no amor pela viagem. Temos mesmo de deixar a zona de conforto dos mapas para nos tornarmos viajantes, enamorados, vigilantes, sentinelas. Dir-se-ia que a vida nos pede uma escuta que atravesse o tempo, que perfure os séculos, que transcenda a paisagem, sintonizando com aquilo que verdadeiramente temos diante de nós. E, por isso, temo-nos de perguntar muitas vezes, pela vida fora: Qual é a nossa fronteira? O que é que nos olha de frente? O que trazemos diante de nós?

José Tolentino Mendonça
Padre e poeta portugues, autor do livro "Nenhum caminho será longo" - Edições Paulinas.
Texto originalmente publicado em Diário de Notícias - Ilha da Madeira - 19.08.2011

http://www.centroloyola.org.br/index.php/revista/outras-palavras/desdobramentos/409-o-que-nos-olha-de-frente

Nosso Tempo

I
Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.
Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.
Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.
Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.
II
Esse é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.
Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.
Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?
Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces
e dissipa, na praia, as palavras.
A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.
Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
e pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.
III
E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contêm:
papéis?
crimes?
moedas?
Ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiador urbano,
ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,
moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,
pessoas e coisas enigmáticas, contai;
capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;
velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;
ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da costureira, luto no braço, pombas, cães errantes, animais caçados, contai.
Tudo tão difícil depois que vos calastes…
E muitos de vós nunca se abriram.
IV
É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.
É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.
No beco,
apenas um muro,
sobre ele a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.
V
Escuta a hora formidável do almoço
na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.
As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.
Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!
Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa,
olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.
Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,
mais tarde será o de amor.
Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.
O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.
Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.
Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,
vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,
toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.
Escuta a hora espandongada da volta.
Homem depois de homem, mulher, criança, homem,
roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,
homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem,
imaginam esperar qualquer coisa,
e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,
últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,
já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.
Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,
o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,
com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,
escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,
errar em objetos remotos e, sob eles soterrados sem dor,
confiar-se ao que bem me importa
do sono.
Escuta o horrível emprego do dia
em todos os países de fala humana,
a falsificação das palavras pingando nos jornais,
o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,
os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,
a constelação das formigas e usurários,
a má poesia, o mau romance,
os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,
o homem feio, de mortal feiúra,
passeando de bote
num sinistro crepúsculo de sábado.
VI
Nos porões da família
orquídeas e opções
de compra e desquite.
A gravidez elétrica
já não traz delíquios.
Crianças alérgicas
trocam-se; reformam-se.
Há uma implacável
guerra às baratas.
Contam-se histórias
por correspondência.
A mesa reúne
um copo, uma faca,
e a cama devora
tua solidão.
Salva-se a honra
e a herança do gado.
VII
Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos
para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
dores de classe, de sangrenta fúria
e plácido rosto. E há mínimos
bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
lesões que nenhum governo autoriza,
não obstante doem,
melancolias insubornáveis,
ira, reprovação, desgosto
desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.
Há o pranto no teatro,
no palco? no público? nas poltronas?
há sobretudo o pranto no teatro,
já tarde, já confuso,
ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,
vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,
vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,
e secar ao sol, em poça amarga.
E dentro do pranto minha face trocista,
meu olho que ri e despreza,
minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,
que polui a essência mesma dos diamantes.
VIII
O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
promete ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta
um verme.

Carlos Drummond de Andrade )
(Poema digitado e novamente conferido por mim mesmo, publicado em Antologia Poética – 12a edição – Rio de Janeiro: José Olympio, 1978, ps. 109 a 116)